Morfologia do Fim do Mundo
Derivação Parassintética: O "Tudo ou Nada" das Palavras
Você já parou para pensar em como novas palavras surgem na nossa língua? Às vezes, o processo é como montar um brinquedo de LEGO, onde vamos encaixando peças. Hoje, vamos falar de um jeito bem específico e curioso de criar palavras, a derivação parassintética.
Pode parecer um nome complicado clássico de uma aula de gramática, mas a ideia por trás é bem simples de entender. Vamos lá? O que é a Derivação Parassintética?
De forma simples, a derivação parassintética acontece quando adicionamos um prefixo, partícula que vem na frente da palavra, e um sufixo, partícula que vem no final da palavra, em uma base fixa ao mesmo tempo.
A grande diferença aqui é a simultaneidade. Imagine que o prefixo e o sufixo são como um pacote fechado ou uma venda casada, Deus me livre! E quando digo casada quero dizer casada mesmo, afinal, “o que Deus uniu, não separe o homem! ”Para a palavra nova existir, os dois precisam ser colados na base no exato momento da criação. Como uma pequena família de três partes: Prefixo + Base + Sufixo, com esses ingredientes nós temos a derivação parassintética, vamos verificar outros detalhes que compõem esse relacionamento. Entenda que esses componentes são um só! Inseparáveis e indissociáveis! Absolute Matrimônio!
Há uma regra de ouro, um teste de existência.
Como saber se uma palavra é parassintética ou se ela apenas tem um prefixo e um sufixo que foram colocados em momentos diferentes? É fácil! Basta tentar tirar uma das partes.
Veja o seguinte, na derivação parassintética, se você retirar o prefixo ou o sufixo, a palavra que sobra não existe de forma independente na nossa língua. É uma relação tão forte que não há possibilidade de retirar um deles sem gerar um erro. Eles são um só mesmo. Só existem juntos.
Junta-se à palavra primitiva partes de um circunfixo (afixo de duas
partes entre as quais se encaixa a base).
Nesse caso, a relação entre as partículas é tanta que não há
possibilidade de retirar uma delas sem gerar resultado agramatical.
Esse processo não concatenativo forma, principalmente, verbos
obtidos a partir de substantivos e adjetivos:
en-tard-ecer a-joelh-ar
en-gord-ar es-clar-ecer
E isso não sou eu que estou dizendo de acordo com as vozes da minha cabeça, não! É Gonçalves que está afirmando categoricamente, tem que respeitar!
Veja a diferença na prática Envelhecer > base >velho/ Tente tirar o prefixo “en” existe a palavra "velhecer"? Não! Tente tirar o sufixo “ecer” existe a palavra "envelho"? Não, mas poderia, né? “Envelho” me soa bom demais pra não existir... Para finalizar, o prefixo e o sufixo precisam estar casados com a base fixa, juntos!
Palavra NÃO Parassintética,” Infelizmente” ou “Deslealdade” se tirarmos o sufixo “mente”, temos “infeliz", que existe. Se tirarmos o prefixo “in”, temos "felizmente", que também existe.
Conclusão, aqui a formação aconteceu em etapas, não ao mesmo tempo. Então, não se trata de uma derivação parassintética.
Para você não esquecer desse caso de amor inseparável, a maioria das palavras criadas por esse processo são verbos que surgem a partir de substantivos ou adjetivos. Margarida Basílio e Ieda Alves nos mostram alguns exemplos clássicos encontrados nos estudos da língua:
Enriquecer, vem de “rico”+ prefixo “en” + sufixo “ecer”.
Ajoelhar, vem de “joelho” + prefixo “a” + sufixo “ar”.
Engavetar, vem de “gaveta”+ prefixo “en” + sufixo “ar”.
Amanhecer, vem de “manhã” + prefixo “a” + sufixo “ecer”.
Desalmado, vem de “alma” + prefixo “des” + sufixo “ado”.
Apalhaçar, um exemplo curioso que vem de “palhaço”. Não existem as formas "apalhaço" ou "palhaçar", por isso é parassintética.
Qual a importância disso?
Esse processo é comum em criações de palavras novas, modernas, os neologismos, ele é fundamental para entendermos a estrutura do nosso vocabulário. Entender a derivação parassintética nos ajuda a perceber que a nossa língua não é apenas um amontoado de letras, mas um sistema organizado onde o significado e a forma caminham de mãos dadas, as analogias usadas são todas ligadas a um relacionamento amoroso longo e duradouro >_<.
Gostou dessa explicação? Agora, da próxima vez que você ouvir alguém dizer que vai “esclarecer” “es”+ “claro” + “ecer” uma dúvida, você já sabe, essa pessoa está usando a boa e velha derivação parassintética! A menos que você esteja no finado Twitter, ai, não pode usar essa palavra, ela foi cancelada.
Falando em Twitter, jamais me renderei ao Elon Musgo para chamar a rede de “X”, temos alguns neologismos como os seguintes:

Empretecer > Em + Preto + Ecer

Envuduzar > En + Vudu + Zar Os neologismos acima demonstram que a maioria das palavras criadas por esse processo são verbos que surgem a partir de substantivos ou adjetivos. Empretecer significa tornar preto e envuduzar significa enfeitiçar, “secar”. Esperamos ter ajudado. REFERÊNCIAS
GONÇALVES, Carlos Alexandre. Morfologia. Linguística para o ensino superior, v. 1. São Paulo, 2019. p. 19, 140-41.
BASÍLIO, Margarida. Formação e classes de palavras no português do Brasil. 2011.
ALVES, Ieda Maria. Neologia: histórico e perspectivas. 2018. Integrantes do grupo: Frederico Ramonne e Maria Vitória

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