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Processos de criação neológica

Público·26 membros

A linguagem digital na criação de novas palavras

Nos últimos anos, especialmente durante e após a pandemia de COVID-19, passou a circular com mais força no debate público brasileiro o termo “anti-ciência”. Ele é usado para se referir a discursos e atitudes que rejeitam ou desvalorizam o conhecimento científico e as orientações baseadas em evidências, como vacinas e pesquisas na área da saúde.


Como vocês podem perceber, trata-se de um termo que passou a fazer parte do nosso cotidiano e das discussões que acompanhamos nos meios de comunicação.


A palavra ganhou destaque em falas políticas, como em um tweet do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no qual ele menciona os “vírus da anti-ciência e do desprezo pela vida humana”.



Nesse tipo de uso, o termo funciona como uma forma rápida de nomear um conjunto de posicionamentos contrários à ciência, facilitando a identificação de um fenômeno social que se tornou bastante visível nos últimos anos.


Percebam como o uso da palavra ajuda a sintetizar um posicionamento e a dar nome a um comportamento social específico. Do ponto de vista linguístico, “anti-ciência” é um neologismo, ou seja, uma palavra que surge ou ganha força na atualidade, para assim nomear algo novo. Ela é formada pelo prefixo anti-, que indica oposição, junto à palavra ciência, e se consolida em um momento histórico marcado por debates sobre o papel da ciência na sociedade.




Um detalhe interessante está na escrita do termo. É muito comum encontrarmos a forma tanto com hífen (anti-ciência) quanto sem hífen (anticiência) em diferentes publicações; esse é justamente o fenômeno que ocorre entre jornalistas e as pessoas em meio às redes sociais.



No entanto, a forma gramaticalmente correta é anticiência, viu? Sem hífen! Já que o prefixo anti- termina em vogal e a palavra ciência começa com uma consoante.


Essa variação entre usar ou não o hífen é um caso de instabilidade denominativa, algo comum em palavras novas, que ainda estão se firmando no uso da língua. Notem como essas regras mostram que a escrita também segue critérios específicos e que a formação das palavras não acontece de maneira aleatória.


Atualmente, o termo circula em diferentes espaços — da política a textos jornalísticos e institucionais — sendo usado para nomear e criticar práticas consideradas prejudiciais à ciência. Esse percurso de uso evidencia como a língua se ajusta às transformações sociais, criando e consolidando novas palavras para dar conta de realidades emergentes.


Voltando a falar sobre linguagem, temos o processo de prefixação como um dos jeitos mais comuns de formar palavras novas no português. Ela acontece quando a gente adiciona um prefixo, um pedacinho que vem antes da palavra, a um termo que já existe, mudando ou ajustando o seu significado. É o caso de palavras como pós-pandemia, anti-vacina ou superlive, que surgiram para dar conta de situações muito específicas do nosso tempo.




Percebam como esses exemplos fazem parte do nosso cotidiano e provavelmente já passaram pela fala ou pela leitura de vocês.


Esse processo faz parte do que os estudiosos da língua chamam de derivação prefixal, mas explicando melhor, trata-se basicamente de aproveitar palavras que já conhecemos e “turbinar” o sentido delas com a ajuda de prefixos.


Na maioria das vezes, a palavra continua sendo da mesma classe gramatical, ou seja, um substantivo continua substantivo, um adjetivo continua adjetivo, mas passa a carregar uma ideia a mais.


Observem como a estrutura da palavra permanece, mas o significado se amplia. Os prefixos podem indicar, por exemplo, negação ou oposição (anti-, des-, in-), intensidade ou excesso (super-, hiper-), repetição ou reformulação (re-), além de noções de tempo, como algo que vem antes (pré-) ou depois (pós-).


É justamente essa capacidade de condensar ideias complexas em palavras curtas e fáceis de entender que faz da prefixação um processo tão comum na criação de novas palavras, como explica o linguista Carlos Rocha e também a linguista Margarida Basílio em seus estudos sobre formação de palavras.


Nos últimos anos, esse processo tem se mostrado bastante produtivo em áreas como a política, a ciência e o universo digital. Isso acontece porque esses campos mudam muito rápido, e a língua precisa acompanhar essas transformações.


É por isso que vemos surgir termos como pós-pandemia, usado para falar do período depois da crise da COVID-19; anti-vacina, que ganhou enorme circulação com os debates sobre saúde nas redes sociais; ou ainda superlive, palavra criada para dar conta de transmissões ao vivo que fogem do padrão comum, reunindo grandes públicos e alta repercussão.



Vocês conseguem perceber como essas palavras ajudam a organizar e nomear experiências muito recentes da nossa história?


Um ponto importante é que a prefixação depende muito do contexto histórico e social. Muitos prefixos existem há séculos na língua, mas nem toda combinação faz sentido em qualquer época. Como lembra a linguista Ieda Alves, os neologismos surgem quando há uma necessidade de nomear algo novo ou de reorganizar sentidos antigos. Assim, a novidade não está no prefixo em si, mas na maneira como ele se liga a uma palavra e passa a circular na sociedade.


Isso nos mostra que a língua não é estática, mas acompanha as necessidades comunicativas de cada momento.


Isso também ajuda a entender o surgimento de palavras como reinfecção, que ganhou grande circulação nos noticiários durante a pandemia para indicar quando uma pessoa contrai de novo uma mesma doença.



Outro exemplo é intankável, termo bastante usado nas redes sociais para se referir a algo “insuportável”, difícil de aguentar ou tão absurdo que não dá para levar a sério.



Nesse caso, o prefixo in- traz a ideia de negação, enquanto a base vem do verbo inglês “to tank”, muito usado no mundo dos games.


Também podemos pensar em hiperconectado, em que hiper- intensifica o sentido, muito ligado ao uso em grande quantidade das redes sociais e outras plataformas digitais. Esses exemplos mostram que a prefixação não cria palavras “do nada”, mas reaproveita elementos da própria língua para responder a novas demandas de comunicação.


Outro fator que torna esse processo tão eficiente é que, mesmo quando alguém encontra uma palavra prefixada pela primeira vez, geralmente consegue entender seu sentido pelo contexto e pelo valor do prefixo. Isso facilita a circulação do termo e aumenta as chances de ele se espalhar rapidamente, principalmente nas redes sociais, no jornalismo e na fala do dia a dia.


Vale lembrar que nem toda palavra formada por prefixação é automaticamente um neologismo. Para que isso aconteça, é preciso basicamente que ela tenha uso recente e seja reconhecida por um grupo maior de falantes. É justamente esse tipo de acompanhamento que alguns projetos fazem, registrando como novas palavras surgem, se espalham e, em alguns casos, se consolidam no português brasileiro.


É interessante pensar que existem pesquisadores dedicados a observar essas transformações quase em tempo real.


Dessa forma, a prefixação não é apenas um recurso da escrita, mas também uma espécie de medidor social. Ao observar quais prefixos estão sendo mais usados e a que tipos de palavras eles se ligam, conseguimos enxergar melhor os debates, conflitos e transformações que marcam o nosso tempo.


Assim, convido vocês a olharem para as palavras do dia a dia com mais atenção, percebendo como cada uma delas pode revelar muito sobre a sociedade em que vivemos.



Referências:

ALVES, Ieda Maria. Neologismo: criação lexical. São Paulo: Ática, 1990.

BASÍLIO, Margarida. Formação e classes de palavras no português do Brasil. São Paulo: Contexto, 2010.

ROCHA, Luiz Carlos. Estruturas morfológicas do português. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008.

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