Do mármore ao feed: como a composição neoclássica ainda molda nossa comunicação
Olá, pessoal!

Hoje falaremos um pouco sobre a composição de bases presas, também chamada de composição neoclássica. O assunto é muito importante nos estudos de morfologia e é um componente necessário para aprender sobre a formação e composição das palavras. Utilizaremos os estudos de Gonçalves (2011), de Alves (2004) e de Jesus (2025), os quais contribuirão bastante para entendermos as ideias que o assunto apresenta.
Dito isso, primeiro precisamos conceituar o que seriam as tais composições por bases presas – ou neoclássicas – e aí, o professor Carlos Gonçalves diz que elas acontecem em várias línguas diferentes e fazem parte de um processo usado na formação dos chamados “internacionalismos”, que seria quando a gente usa palavras ou termos mais técnicos e científicos com uma parte da palavra sendo de origem grega ou latina e podendo ser reconhecida no mundo todo. Como exemplo, aqui no Brasil a gente fala biologia, mas no inglês é biology e no francês biologie. Essa palavra é composta por dois elementos gregos, “bio-”, que significa “vida” e “-logia” que significa “estudo de”, assim sendo o estudo da vida e que é entendido universalmente.
Apesar da definição inicial, a professora Ana Maria de Jesus amplia o raciocínio acima e traz a ideia de que as composições neoclássicas “situam-se na fronteira entre a linguagem erudita e a linguagem vernácula, podendo ser lexicalizados e integrar o léxico comum”. Isso quer dizer, em outras palavras, que elas não se limitam ao vocabulário técnico-científico, mas também podem originar palavras de uso na língua geral, no dia a dia do falante, sendo que uma parte da palavra terá um formante da própria língua nativa de quem fala, e a outra parte será de origem grega ou latina. Como exemplo de elementos eruditos temos as bases -cracia, neo-, e -metro-, que podem ser vistas em palavras como “burocracia”, “neoliberalismo” e “odiômetro”.



E é daí que partimos, da noção de que as palavras que utilizamos em nosso cotidiano, como “agricultura”, que é formada por agri-, elemento vindo do latim e que significa “campo”, mais o elemento cultura; “ecologia”, formada por dois compostos gregos: eco- que significa “meio ambiente” e -logia que designa “estudo de”; e, ainda, a palavra “psicoemotivo” composta por psico-, do grego psyche, significando “alma, mente, espírito", mais a palavra emotivo, que na nossa língua nativa é usada como adjetivo; entre muitas outras, são elementos neoclássicos, formados por um processo que se originou há muito tempo, nas civilizações mais antigas, mas que continua presente na comunicação atual.
Nesse cenário, alguns assuntos que estão em alta no momento, como os ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília, e a operação realizada no Rio de Janeiro no mês de outubro do ano passado, trazem palavras que podemos utilizar para análise dos compostos neoclássicos. Vejamos palavras já conhecidas por todo mundo, mas utilizadas nas seguintes reportagens:


Analisando os dois recortes de notícias, temos duas palavras em especial que podem exemplificar o que são os compostos neoclássicos, são elas “democracia” e “fotógrafo”. Ambas são compostas por bases eruditas e possuem significados totalmente diferentes, mas com bases que estão presentes em muitas outras, como veremos a seguir…


Nesses dois exemplos, a base -cracia, do grego krátos, significando “poder, governo”, foi usada no final das duas palavras, “herançocracia”, que precisou de uma vogal, nesse caso o “o”, para ligar a palavra “herança à base grega (caso não tivesse a vogal de ligação, ficaria “herançacracia”), e “burrocracia”, dando a ideia de que a primeira se trata de um governo (atualizar a polissemia) de herança, e a segunda de um governo burro, fazendo uma comparação com a burocracia que existe na Espanha.


Já nesses outros dois, as palavras “fotomagnetismo” e “fotopsia” foram compostas pela base foto-, que veio do grego photós e designa “luz”. Nos compostos com a base erudita em posição inicial, ou prefixal, a linguista Ieda Alves vai dizer que a primeira base, que é a de origem neoclássica, vai ser determinante sobre a segunda, mostrando um relação de subordinação entre elas: a primeira base vai especificar a segunda, mas ela também depende desta segunda para fazer sentido. Assim, “fotomagnetismo” se refere à mudança na propriedade magnética de um material por meio da luz e “fotopsia” se trata de pontos de luz que aparecem no campo de visão ao coçar os olhos ou apertá-los.
Observemos, então, como são muitas as possibilidades de formação de palavras por composições neoclássicas no nosso cotidiano e como o falante faz isso naturalmente, utilizando seu conhecimento de mundo e mantendo a língua viva por meio de processos como esse.
E aí? Conseguiu entender o que são as composições por bases presas? Esperamos que a partir dessa explicação vocês consigam perceber como os compostos nascidos lá atrás, na Grécia e na Roma Antigas, são naturalmente usados em nossa língua ainda hoje. Até logo!!!
REFERÊNCIAS
ALVES, Ieda Maria. Neologismo: criação lexical. 2. ed. São Paulo: Ática, 2004.
GONÇALVES, Carlos Alexandre. Compostos neoclássicos: estrutura e formação. ReVEL, edição especial, n. 5, 2011. Disponível em: http://www.revel.inf.br/files/artigos/revel_esp_5_compostos.pdf. Acesso em: 11 fev. 2026.
JESUS, Ana Maria Ribeiro de. Neologismos formados por composição neoclássica: padrões, morfologia e crítica cultural. Domínios de Lingu@gem, Uberlândia, v. 19, p. e019050, 2025. DOI: 10.14393/DLv19a2025-50. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/dominiosdelinguagem/article/view/79015. Acesso em: 04 fev. 2026.
AUTORIA: Adimilso José de Miranda Junior e Juliana Teles Ferreira

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